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18/02/2019

Neste dia


Foto por Ayla Fazioli  | © Todos os direitos reservados

A torcida ovacionava e comemorava com fervor a bola que sacudia a rede do time rival. De camisa oficial e bandeira amarrada nas costas, ela permanecia em silêncio, alheia ao que acontecia em seu redor. Sentada no assento que geralmente serve apenas para marcar lugar, sob o céu sem nuvens de Itaquera, a felicidade que lhe invadia a alma todas as vezes em que via o Corinthians entrar em campo fora tomado por um súbito vazio no peito, um desnorteio que doía e apertava aos pouquinhos – e cada vez mais forte – seu coração. Ela ainda lembrava da primeira vez que o levara ali, explicando passes, apresentando jogadores, fotografando sorrisos e animada por estar ao lado dele na Casa do Povo.

A foto da carteirinha de Fiel Torcedor dele havia sido tirada por ela, num cantinho que ela agora evitava olhar para não reaver as memórias. A camisa, as canecas e todos os objetos que lembravam o brasão do time passaram a decorar a casa dele também, que fez questão de aprender hino, os gritos de guerra, as piadas com os times rivais e se emocionava como torcedor de longa data a cada jogada bem executada. Os ingressos comprados por ele tinham sido a última razão do sorriso de ambos, duas semanas atrás. O assento vazio ao lado do seu, naquela final de Campeonato Paulista era onde ele devia estar, pulando feito criança contente, batendo no lado esquerdo do peito o amor ao brasão corintiano.

01/12/2018

Compartimento


Foi retirada do compartimento pequeno e úmido que a enclausurava num canto escuro da garagem. Meses soterrada sob os entulhos de restos de histórias e dejetos que não deviam vir a público por não merecer o convívio familiar cotidiano. Sob a claridade que a tomou de supetão, arqueou os braços desgastados de maneira tímida, deixando à mostra os arranhões e amassados que lhe causava um aspecto assustador ao espectador mais desavisado. Prostrada sobre uma base, a expuseram na sala de estar, trataram-a com a dignidade que não recebera há tempos. Renovada, ganhou um ar imponente e uma aparência lustrosa que causaria inveja aos vizinhos que viessem reparar em seus detalhes há pouco encaixotados. Ganhou decorativos ao redor do corpo, um adorno no topo do corpo e luzes que piscavam conforme um botão lhe indicasse. Uma vez por ano seu momento de glória merecido, mesmo árvore de ramos artificiais, servindo para trazer um pouco do espírito natalino que bem poderia estar presente o ano inteiro.

29/10/2018

Muro esponjoso


Às vezes, sou parede. Recebo crítica na mesma medida que as rebato. Sigo firme, sólida, na rigidez do muro de concreto que não se abala. Nesses dias, nenhuma tempestade é capaz de atravancar o caminho da parede que teima em se conservar rígida em sua extensão. Mesmo com marcas de tempo, uns riscos, umas lascas caídas por chão, se mantém estável. Queria eu poder todos os dias ser parede.

Como quem não entende em que ponto há essa mudança na mente, tem dias que sou esponja. Um "bom dia" mais sério me despedaça. Uma discordância de ideias, uma desconfiança de capacidade. O suficiente para me desmontar inteira. Às vezes, sou esponja. Absorvo até o que não devia ser sentido como negativo. Inundada de tanta negatividade, me desabo em lágrimas. Sabe como é, esponja que precisa se esvaziar.

02/01/2018

Indigente


Antônio Silva, 43. Tinha quatro filhos, Claudia, de cinco, Marcos, de onze, Lívio, de quatorze, Catarina com dezenove. A mulher, Luzinete Cardoso, tinha 36. Viviam todos numa casa simples com cinco cômodos num bairro pobre da zona leste. Antônio, operário numa indústria de laticínios. Luzinete, diarista. Catarina, atendente de lanchonete. Claudia achava o máximo o pai saber fabricar queijo — era doida por eles. Os meninos sonhavam com um videogame e a mais velha, apesar de amar a família, queria casar com um cara da alta sociedade. Ser rica, ir morar no Morumbi. Luzinete tinha as mãos calejadas tal qual à de um pedreiro, também pudera, seu trabalho era árduo. Em véspera de feriado importante, Antônio ganhava algum brinde da empresa. Quando a Páscoa chegava, um ovo era dado pra cada membro da família — e Claudia dizia que queria ser operária igual ao pai.

Em plena sexta-feira santa, Antônio quis fazer sua família mais feliz. Além dos ovos, tirou quase todas as suas economias do banco e levou uma batedeira pra casa. Comprada nas Casas Bahia, em pleno feriado, quando os vendedores não dão a mínima se você quer levar alguma coisa ou não. Saiu contente. Mochila nas costas e sacolas nas mãos.

29/12/2017

Antivírus


Ora quer saber?
Deletei você, limpei do HD
Apaguei seu vírus da programação
Sem definição, seu arquivo vai
Rapidinho fugindo da memória
(Delete - Lulu Santos)

Todo fim abre possibilidades de um começo. A gente reinicia do final.
Repete o ciclo. Aprende o caminho. E para de se perder nas encruzilhadas.

Seu contato ainda permanece ali. Do mesmo jeito em que centenas de dias atrás você me pedira pausadamente o meu celular para incluir seu número, seu nome permanece como que quimera a reduzir o espaço para novos contatos, novas possibilidades. O aplicativo de mensagens ainda mantém aquela conversa esquecida no fim da lista. Aquela última vez em que eu fui a primeira a cumprimentar e a última a me despedir. Eu reli cada balão de texto daqueles dias no intuito de que aquilo pudesse voltar para mim. Mesmo que no fundo da alma ribombasse a palavra doentio, carnal, egoísta. Era apenas o que você via quando falava sorridente comigo. Eu tentei fingir sentir o mesmo por algum tempo. Me enganei e repeti em voz alta que não queria nada além daquilo como maneira de tentar acreditar na minha própria mentira, só que eu nunca consegui. No fundo, mesmo quando, sozinha à noite em minha cama, eu revirava os olhos ao fantasiar seu corpo despido sobre meu peito nu, eu também podia sorrir terna ao imaginar nós dois de mãos dadas, sentados sobre a grama ainda fria da manhã de outono, abraçados por minutos a fio, sem conversas para dispersar. O vento que bagunçava meus cachos pelo rosto. O meu e o seu. Meu ombro servindo de travesseiro ao seu rosto e eu deitando o meu rosto sobre o seu. E o pulsar ritmado dos nossos corações compunha a trilha sonora eloquente daquele sonho cinematográfico na minha mente. Que sempre vinha seguido da decepção, da desilusão. Eu tentei me enganar, Bê, mas eu nunca fui dessas. Por vezes eu juro pra você que eu queria conseguir ser. Só que eu idealizo demais. Crio expectativas demais. No fundo, eu sempre amo demais. Tinha todo aquele gosto de descoberta que você, mais maduro e experiente, quis que eu aflorasse e entregasse a você, mas também tinha o sentimento que eu queria negar a mim mesma. Havia o carnal - e como havia -, mas no fim de cada semana o que povoava meus pensamentos sobre você era o que o meu coração mandava, não os meus hormônios.

01/10/2017

Velha história


Sob a touca cinza, possuía cabelos desgrenhados num tom cinza-claro que disputavam a cabeça enrugada com outros poucos fios marrons.  Os olhos azuis-piscina envoltos por pálpebras cansadas de anos de trabalho continham um brilho de realização. Andava com ajuda de uma muleta que em sua haste havia pequenas flores artificiais em tons lilás. "Só pra deixar a vida mais colorida", me dissera com um sorriso frouxo. Usava uma calça jeans desbotada que já mostrava marcas do tempo e algumas patinhas enlameadas aqui e acolá demonstravam que o senhor tinha um cachorro, que por sinal era muito bagunceiro. Nos pés, usava um All Star vermelho também com sinais de gasto: um notável rasgão despontava próximo ao calcanhar esquerdo e um remendo no pé direito havia sido feito com tecido xadrez e linha branca grossa, o que deixava sua aparência um tanto quanto cômica. Fazia frio lá fora e tentando vencer o vento gélido que teimava em nos alcançar, o velho usava um suéter de lã num tom marrom sujo, do tipo de quando a gente mistura várias cores pra ver no que dá.
Carregava uma pequena mala de couro à tira-colo e um radinho de pilha no bolso. Um colar de São Francisco ia no pescoço e uma barba curta terminava por descrever aquela figura desconectada da realidade do mundo moderno. Em plena sexta-feira, sentara-se ao meu lado no trem, e meio sem jeito, mas confiança na voz se apresentou.

17/09/2017

Café requentado

 
Era a oitava vez no dia em que pensava sobre o dia anterior. Sob o tampo da mesa de centro estava a xícara de café requentado, uma revista de fofocas entreaberta e seus pés cansados envolvidos numa infantil meia de lã. O brilho luminoso do decodificador da televisão marcava duas horas da manhã e ele, olhando fixamente para o teto verde água, já havia perdido as contas de quantas vezes viu os faróis dos carros lá embaixo que reluziam nas paredes do apartamento atravessadas pelo vidro da janela.

Um gato miou no apartamento vizinho e ele saiu do transe em que estava para ouvir a filha de dois anos ressonar risonha em seu quarto. O berço de madeira barata rangeu reclamações sob o peso da criança antes que tudo se acalmasse novamente. O silêncio da madrugada o cercou intenso e houve um pequeno sobressalto quando uma brisa fria cruzou parte da cortina que cobria a janela e fechou repentinamente a revista sobre a mesa.

10/09/2017

Ainda bem


Ouça enquanto lê Ainda Bem da Marisa Monte

Eu quase cheguei a desacreditar no amor. Os textos sobre ele se tornaram escassos, os suspiros de felicidade diante de casais apaixonados rarearam e até as músicas melosas daquela pasta vergonhosa que ocupavam parte do disco rígido do meu computador não eram mais tocadas. Se antes o amor era visto até no raiar do dia, o cinza pálido tomou conta da minha visão quando passei a assumir tudo apenas como dádivas do ciclo natural das coisas. Assim, gradativamente, o amor foi se perdendo em si mesmo, sucumbindo aos desejos do fracasso, à força da opressão e ao impulso do medo. Foi isso que mais senti quando quase cheguei a desacreditar no amor. O medo do futuro que se abre. Inexplorável. Ameaçador. Como acreditar em algum sentido da vida sem o amor?

De cabeça baixa, andando pelas ruas num corpo quase inerte enquanto ventos ruidosos chacoalhavam meus cabelos, eu sentia que mesmo de mãos fechadas, o amor escorria pelos meus dedos rumo a um destino sem volta. Sem sua crença, ele não existira, eu não seria eu. Mas então, como que por intervenção divina, você apareceu. Todo sorrisos, conversas inteligentes e perfume amadeirado. E de repente, o amor enroscou-se em meus dedos e se fixou como quem não quer sair de perto. E o raiar do dia, aquele que eu já tinha passado à ver pelo lado científico, tornou-se lindo. Virou amor. E eu me tornei toda feita de amor. Éramos ambos amor. Ainda bem que você chegou, senão não haveria esse texto, não haveria eu, não haveria sentido. Eu quase cheguei a desacreditar no amor. Ainda bem que você chegou a tempo.

07/09/2017

É só amanhã


Do outro lado da janela ela via as gotas grossas de chuva chocarem-se violentamente contra o vidro e ouvia o vento que uivava ameaçador, vez ou outra fazendo as gotas menores rodopiarem pelo ar livre. Sozinha no minúsculo apartamento, fitava com atenção descomedida a velha mancha redonda de café sobre a mesa branca de duas cadeiras. Lembrava da história de quando havia a comprado, numa liquidação eterna de "é só amanhã" das Casas Bahia. A vendedora robusta unia estilos distintos com seu batom roxo escuro nos lábios e colar com um Om¹ recortado em madeira escura. Hippie e gótica mantinham-se numa linha tênue para ela. De tanta especificação técnica que a moça havia dito que a mesa possuía, ela só lembrava do MDF antimanchas e as dobradiças que a faziam subir ou descer igual às mesinhas das poltronas de avião. No intuito de economizar espaço, ela descobriu que a mesa não cumpria nenhuma de suas funções. Três meses depois de instalada por um moço risonho que veio à sua casa entregar a mesa compacta, ela sucumbiu ao fracasso quando não aguentou a xícara de café quente sobre si deixando um rastro amarronzado na madeira branca e pouco depois desistiu de vez de subir e alinhar-se na extensão da parede. Teimosa, ocupava um espaço precioso do pequeno apartamento, dificultava a abertura da porta e rangia reclamações a cada novo esbarrão em suas quinas. Com a energia elétrica cortada, o silêncio só não se tornara tedioso devido as gotas com seus ruídos díspares. O gato siamês que observava atento à animação em frente à janela, saltou do sofá e ronronou manhoso quando subiu na mesa tapando a mancha de café. Um trovão assustou a ambos, que atônitos, voltaram a atenção para a janela. Ela esfregou a cabeça peluda do bichano e sorriu. Se a mesa funcionasse como devia, a cena não seria possível. Ainda bem que ela não funcionava direito. Animais e coisas se parecem mesmo com seus donos.

¹O Om (ॐ) é o mantra mais importante do hinduísmo. Essa sílaba única, Om, vem dos Vedas. Como uma palavra sânscrita, significa avati raksati – aquilo que lhe protege, lhe abençoa. Diz-se que ele contém o conhecimento dos Vedas e é considerado o corpo sonoro do Absoluto, Shabda Brahman.

03/09/2017

Uma crise de identidade cultural


O contato excessivo da cinematografia americana com os adolescentes brasileiros quase sempre se resulta em expectativas exageradas e frustrações que costumam seguir a mesma dimensão. Mesmo que o primeiro semestre de faculdade seja todo mundo meio equivalente – descompensando o fato da idade, experiência profissional e educacional e outras áreas –, todos se olham de soslaio, ansiosos por alguém que decida puxar um assunto aleatório. E o tema é quase sempre o mesmo: nome, idade, trabalho, motivo da escolha do curso, sonhos... E aí entram os professores com suas apresentações e se sucede um novo diálogo de mesmo tema.

O ponto divergente principal que senti na primeira hora da primeira aula foi a diferença entre os alunos. Idade, assuntos, conquistas. Eu ali, recém maior de idade, com bagagem cultural quase nula – ou pouco relevante – em meio a pessoas que falavam de seus empregos enquanto eu ainda mal concluía o primeiro ano do meu primeiro trabalho, como atendente de lanchonete do McDonald’s. Enquanto muitos tinham suas metas bem estabelecidas – área de atuação de desejo, futuro tema de TCC, objetivos principais com o jornalismo –, eu ainda relatava que estava ali porque gostava de ler e escrever – talvez fosse porque é a única coisa que faço bem de verdade.

21/04/2017

Escritor nenhum compra


Estava sentada num banquinho qualquer da praia. Jogada desleixadamente fumando um cigarro barato qualquer enquanto parecia tentar, sem resultado fazer anéis de fumaça tão bons quanto os dos anões da Terra Média. Tinha um cabelo cacheado farto em tons dourados e os olhos acinzentados fitavam a imensidão azul do mar. Rosto pequeno, estatura média e uma boca carnuda adornada por um batom vermelho vivo bem delineado contrastando com a pele clara e bochechas rosadas.

Sentei, relutantemente, ao seu lado. Mesmo sem querer tentei sentar-me desleixadamente também para parecer mais sociável e passar mais confiança.

— Oi... – Nenhuma mudança na expressão dela. Nem mesmo um suave levantar de sobrancelhas. - Eu... Sou Vítor.

26/03/2017

Pé de vento


Quando Laura passou a pé rente ao meio-fio da praça central, ela sabia que jamais voltaria a ver aquelas ruas de ladrilhos com os mesmos olhos. A igreja de tijolo escuro com os sinos ostentados nas duas torres principais e os vitrais que retratavam cenas bíblicas tinham um lindo efeito multicor sob os raios solares do entardecer. A pequena área de praça dedicada aos brinquedos, com chão de terra batida que quase sempre ficava enlameado em dias de chuva fora responsável por grande parte das suas amizades. Via a si própria, dez anos antes, correndo estabanada em meio aos brinquedos enferrujados. Da cor original só sobrara o velho escorregador vermelho, que também havia guardado os risos de sua mãe, seu pai e seus irmãos. Um só escorregador. Tanta história envolta.

Diminuiu ainda mais a velocidade dos passos para apreciar por mais alguns valiosos segundos o prazer de aspirar aquele ar terroso, úmido e sertanejo. Vislumbrou as serras verdes ao redor, o céu límpido azul turquesa e um pintassilgo teimoso que se arriscara a bater asas naquele sol escaldante. O carro preto já estava parado ao lado da estátua de São José, padroeiro da pequena cidade e responsável pelas badaladas ritmadas das 18 horas de cada dia. A venda do seu Maneco, a padaria da dona Neide, a lan house do Gabriel e o posto de saúde com a enfermeira Carla. Cada casa, cada cor. Sabia exatamente quem se ocultava por trás de cada parede da cidade. Sentiria falta disso.

17/03/2017

Vênus em Libra


Há uma parte de mim que se desmancha toda vez que você sorri, a outra parte ignora e não se interessa. Uma parte quer correr para o calor dos teus braços, enquanto a outra prefere se jogar no aconchego do sofá da sala. Uma parte de mim deseja te fazer mimos e cafunés, a outra revira os olhos e quer que tudo isso tenha logo um fim. Do meu eu indeciso, brotou amor, brotou repulsa. Como você teve a ousadia de vir falar comigo, naquele sábado à noite, depois de uma sexta-feira de feriado? Como você veio de voz mansa tentar convencer meu coração mole e persuadir minha alma confusa?

Sabe moço, eu não queria me envolver. Se eu estava num canto escuro de um bar de esquina bebendo um vinho barato, era justamente porque não queria me envolver. E você veio, desbravador de mares, abrindo espaço pelas cadeiras ruidosas, desviou de uma moça de saia curta, quase teve que segurar um rapaz que ultrapassou os limites da bebedeira. Um sorriso maroto de canto de boca, uma camisa com os dois primeiros botões abertos e mangas dobradas. Sai daqui, moço, soou alto e claro em minha mente. Mas você não desistiu, puxou a cadeira pra sentar-se do outro lado da mesa e puxou conversa numa tentativa quase falha de aproximação.

05/03/2017

Romance de prateleira


Num impulso, ela tivera os olhos comparados aos de Capitu. Ela, não queria compará-lo a Bentinho, não porque não o achava tão charmoso quanto, mas porque, supersticiosa como era, achava que um apelido assim, acabaria os levando ao mesmo destino do casal de Machado.

De Capitu, ela só tinha os olhos. Encobertos em largas lentes. Talvez o cabelo um pouco desgovernado. Nada mais. De Bentinho, ele só tinha a sabedoria, a perspicácia. A mansidão. Talvez os cachinhos. Nada mais.

26/02/2017

Itinerário



A mochila ia  ao seu lado, no assento vazio do ônibus de viagem. Uma passada de olho pelo corredor e viu que os assentos vazios não eram poucos, mas também pudera, a cidade não era um destino interessante e ela mesma não sabia como aquela única companhia ainda mantinha a linha funcionando com tão pouco lucro. Assim que sentiu o corpo sacolejar levemente quando o ônibus arrancou ela se sentiu finalmente em paz. Catou uma maçã de um das dezenas de bolsos da mochila e deu uma mordida silenciosa enquanto apreciava a paisagem que se modificava do lado de fora da janela.

Logo vieram os primeiros suspiros enquanto os outros passageiros ressonavam e ela mesma se deu ao luxo de dar um cochilo. Quando acordou, já estava escuro e o céu parecia que não ia ver a cor da Lua aquela noite. Ao seu lado, o assento estava ocupado e a sua própria mochila agarrada aos braços de um desconhecido. Ela percebeu que o cochilo se tornou um sono pesado quando olhou as horas no relógio e já passavam das nove da noite. O ônibus já havia passado pelo único ponto em que paravam durante toda a viagem e ela não tinha mais a liberdade de um assento livre ao seu lado. Pensou em acordar o desconhecido, ou puxar a mochila, ou passar silenciosamente por ele e ir ao banheiro, mas todas as opções se tornavam muito tolas na mente quando ela parou pra pensar em cada uma separadamente. No fim, decidiu voltar a dormir. Saberia que dali em diante só teria a cidade-destino pela frente e não teria como o desconhecido fugir com sua mochila.

24/02/2017

Duas estradas de terra



A cidade era minúscula. Nenhuma opção de transporte público e nem o carro tinha muita serventia. Depois de uma vida morando em uma metrópole agitada, finalmente Ricardo se sentia em paz. A cidade no interior acordava com o primeiro canto de galo e silenciava assim que o sol se punha. Trabalhando pela internet ele podia se dar esse presente.

Sua casa ficava há cerca de quinze minutos a pé do centro. Uma casa pequena com um terreno verde ao redor e uma cerca branca que ele mesmo se dispusera a renovar a pintura assim que se mudou. Precisava cruzar uma rua de ladrilhos e duas estradas de terra para conseguir encontrar a casa entre o matagal. Ele nunca estivera tão feliz: dos ruídos incômodos de carros e britadeiras, passara a ouvir pássaros pela manhã e uivos à noite. Mesmo sozinho, sentia-se completo.

21/02/2017

Vícios

Focus Photography of a Ignited Firewood

Fagulhas esvoaçavam alto no céu. O cabelo certamente não amanheceria com um cheiro muito agradável no outro dia. O crepitar inconfundível do fogo ávido consumindo celulose recente era apaziguador. Já passavam das duas da manhã de uma madrugada gelada. Eu mal sentia a ponta dos dedos. Um garrafa térmica com chá de erva-doce aqui, canecas por ali e todos meus amigos dormindo em seus colchões infláveis ou em suas barracas improvisadas. O mar, tempestuoso, ainda bradava os sussurros ensandecidos de um dia anterior cheio de visitantes bêbados e de jovens risonhos. A lua cheia ainda brilhava lá no alto, contrastando o brilho cálido com as ondas revoltas do oceano. Eu sentada sobre meu colchão, envolvia meus joelhos, sentia o cheiro de sal nos meus cabelos, sentia frio e calor ao mesmo tempo. Estava cheia de mim. Não num sentido pejorativo, mas num sentido que faz a gente se sentir completa. Num momento em que a gente só precisa da nossa própria companhia.

17/02/2017

Quadro Clínico


Se possível, leia ouvindo.

Estava ela lá de novo, sentada sob a sombra da macieira que adornava o quintal de sua casa. Da visão da minha janela, o sol das cinco se punha atrás de si, lhe trazendo uma leve aura cálida, que irradiava ao seu redor. Sua silhueta pequena curvada sobre o livro tentava desajeitadamente organizar os fios de cabelo que teimavam em desalinhar-se de seu rosto. A irmã pequena ainda se balançava forte do outro lado da árvore. A casa amarela continuava naquele tom queimado, que logo precisaria de uma demão nova de tinta. Dona Clarinda viria em poucos minutos chamar as filhas para entrarem, seguido de um abraço caloroso e risinhos que as acompanhariam até o bater da porta de entrada. Pouco depois viria o cheiro de café coado e pão tostado com manteiga e então viria a calmaria.

08/02/2017

Acredite em sua sorte

Imagem relacionada

Samantha adorava quando as reuniões da empresa eram feitas naquele restaurante chinês na zona sul da cidade. A comida era ótima, o ambiente tranquilo e ela estava próxima de sua casa. Quase sempre não focava nos assuntos discutidos e ficava sorridente quando o chefe comprava biscoitos da sorte para toda a esquipe. Bom mesmo é que o biscoito significava também o fim da reunião.

Passava das 21 horas quando ela ganhou seu biscoito. Abriu-o e não sabia como reagir diante da mensagem. Guardou no bolso do casaco antes que Carlos viesse sorrateiro ver o que estava escrito. "O que você tirou?", ele perguntou com sorriso claramente bêbado. Samantha inventou qualquer coisa que leu no horóscopo enquanto, com a mão ainda dentro do bolso, pressionava o papel contra a própria pele. O sorriso fingido, a cara de quem estava entendendo os números produzidos na empresa na última semana já tinham se desfeito. Só queria a calma de sua casa.

05/02/2017

Papéis picados

Sozinho, preto e branco, deprimido
[Leia ouvindo Cold Arms - Mumford&Sons]

Em todos os papéis que ela havia escrito o nome dos dois entre corações, agora havia riscos de caneta com um leve baixo relevo. O azul forte, o nítido vão que se formou graças à pressão empregada na caneta. As fotos que os dois tinham tirado juntos viraram picadinhos no fundo do lixo do quarto dela. Facebook, Twitter, Instagram... Ela não tinha mais sequer vestígios de posts compartilhados com o nome dele. O perfume que ele dera há menos de cinco semanas, ela havia doado pra uma prima do interior, com a promessa de que ela usaria o perfume somente no cachorro da fazenda.

Fazia aquilo tudo mais para alimentar o próprio ego. Como se tivesse sido liberta, precisava se desapegar dos detalhes para não ficar apegada ao passado. Tanto tempo, tantos planos. E agora se sentia tão alheia como sua própria versão de 13 anos. Sempre fora forte, prometera não se entregar. Você lembra-se da promessa que fez pra sua melhor amiga – da época – enquanto conversavam na arquibancada do ginásio? De repente, ela estava em prantos em frente à lixeira de sua casa, admirando papéis picados. Queria deixar ali também o próprio coração, porque se desfazer do material não parecia ajudar em nada.