21/04/2017

Escritor nenhum compra


Estava sentada num banquinho qualquer da praia. Jogada desleixadamente fumando um cigarro barato qualquer enquanto parecia tentar, sem resultado fazer anéis de fumaça tão bons quanto os dos anões da Terra Média. Tinha um cabelo cacheado farto em tons dourados e os olhos acinzentados fitavam a imensidão azul do mar. Rosto pequeno, estatura média e uma boca carnuda adornada por um batom vermelho vivo bem delineado contrastando com a pele clara e bochechas rosadas.

Sentei, relutantemente, ao seu lado. Mesmo sem querer tentei sentar-me desleixadamente também para parecer mais sociável e passar mais confiança.

— Oi... – Nenhuma mudança na expressão dela. Nem mesmo um suave levantar de sobrancelhas. - Eu... Sou Vítor.

— Não perguntei.

Como assim? Uma filha da mãe essazinha, quem pensa que é pra me tratar desse jeito? Que desgraçada mal-educada! Eu deveria ir embora imediatamente.

— Ahn... Desculpe. – O idiota aqui ainda se desculpa... DE QUÊ?

De repente, com olhar de pouco caso, ela tirou o cigarro da boca, jogou-a na areia e pisou. A boca parecia ainda mais bonita sem o acessório venenoso. Mas não falou nada. Parecia sentir indiferença sobre eu estar ali e simplesmente continuou a encarar o mar com aqueles enormes olhos cinzas. A expressão parecia cada vez mais infeliz.

Pensei em levantar-me e ir embora. Com aquela não rolaria nada. Nem um cineminha tosco com um romance qualquer. Mas parecia que ela me prendia com sua aura magnética ou algo assim. Não conseguia me afastar.

— Você não desiste. – Ela soltou devagar quase sussurrando e sem muita entonação, quebrando o silêncio entre nós e ao mesmo tempo transpassando os comuns e ruidosos ventos praianos.

Soltei um "hãm?" meio touco e imaginei ter sido inaudível, mas ela havia ouvido pois já começava a formular uma resposta.

— A maioria dos caras desiste no "não perguntei".

Ela faz isso sempre?, pensei com uma expressão interrogativa. Parecia que ela havia ouvido meus pensamentos.

Já ia soltar um "hãm?" duvidoso novamente quando ela me puxou pelo braço e disse para andarmos pela praia.

Andamos por duas horas, no mínimo, e já me sentia exausto, mas valeria a pena se pudesse ter uma noite com aquela garota linda. Estávamos num ponto em que a praia já era deserta. " Melhor ainda" pensei com uma expressão sarcástica no rosto me certificando que ela não tinha visto. Subitamente ela cortou o silêncio novamente.

— Aqui está bom.

Sentei na areia ao seu lado e ela começou a me beijar suavemente com sua boca carnuda. Um beijo doce e quente tocou minha nuca e senti as mãos pequenas tirarem minha camiseta e ela me agarrou forte. Já desabotoava a camisa branca dela quando uma dúvida surgiu na minha mente. Mesmo cheio de tesão, eu deveria perguntar.

— Porque você disse que eu nunca desisto?

Ela abotoou a camisa e murmurou "Essa é a parte chata da coisa". A vi remexer no quadril largo e rapidamente apontar um revólver em minha direção.

— A maioria desiste por eu responder grosseiramente ou por ver esse número de identificação no meu tornozelo.

Caiu a ficha. Havia acabado de dar uns pegas numa presidiária fugitiva!

— Passa a mochila.

E com o revólver ainda apontado pra mim, remexeu na mochila, jogou minha carteira, meu bloquinho de notas e uma caneta no meu colo.

— Aí estão seus documentos.

Bem, ok. Mas não havia motivos pra me devolver o bloco.

— Vocês escritores, são uns idiotas, mas são fofos. Talvez eu vire assunto pra um conto qualquer dia. Até.

E foi embora correndo, rebolando sua bunda farta e jogando seus cachos sedosos ao vento. Fiquei sem dinheiro, sem notebook e mochila, mas tive as melhore três horas da minha vida e ela me deu inspiração, coisa que escritor idiota nenhum compra.


A campainha toca. Gustavo aparece do outro lado da porta. Meu amigo dos poemas sem rimas sorria abobalhado.

— Fui assaltado... 

Pensei em mandá-lo à delegacia, fazer um B.O. Mas ele já completava a frase:

— ... E foi a melhor coisa da minha vida.

— Me conta. – Puxei-o pro sofá, e sem querer estava sorrindo do mesmo jeito abobalhado.
*repost do meu blog antigo

3 comentários:

  1. Ai que saudades desse cantinho e que diálogo lindo! Me lembrou um pouco as fanfics da vida, você escreve tão bem meu bem.
    http://afogandonachama.blogspot.com.br/

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  2. uahushaushas. Que fofo Selmaaaa. E um pouco tenebroso. Realmente... inspiração não se compra. Mas não sei se tomaria como inspiração uma situação dessas. Relativo. ♥

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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  3. Hahahaha! Que conto genial! Gostei! Para um escritor isso foi uma experiência e tanta, mesmo perdendo algumas de suas coisas, haha!
    Beijos!

    www.likeparadise.com.br

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Um beijão, Selma Barbosa.