01/12/2018

Compartimento


Foi retirada do compartimento pequeno e úmido que a enclausurava num canto escuro da garagem. Meses soterrada sob os entulhos de restos de histórias e dejetos que não deviam vir a público por não merecer o convívio familiar cotidiano. Sob a claridade que a tomou de supetão, arqueou os braços desgastados de maneira tímida, deixando à mostra os arranhões e amassados que lhe causava um aspecto assustador ao espectador mais desavisado. Prostrada sobre uma base, a expuseram na sala de estar, trataram-a com a dignidade que não recebera há tempos. Renovada, ganhou um ar imponente e uma aparência lustrosa que causaria inveja aos vizinhos que viessem reparar em seus detalhes há pouco encaixotados. Ganhou decorativos ao redor do corpo, um adorno no topo do corpo e luzes que piscavam conforme um botão lhe indicasse. Uma vez por ano seu momento de glória merecido, mesmo árvore de ramos artificiais, servindo para trazer um pouco do espírito natalino que bem poderia estar presente o ano inteiro.

29/10/2018

Muro esponjoso


Às vezes, sou parede. Recebo crítica na mesma medida que as rebato. Sigo firme, sólida, na rigidez do muro de concreto que não se abala. Nesses dias, nenhuma tempestade é capaz de atravancar o caminho da parede que teima em se conservar rígida em sua extensão. Mesmo com marcas de tempo, uns riscos, umas lascas caídas por chão, se mantém estável. Queria eu poder todos os dias ser parede.

Como quem não entende em que ponto há essa mudança na mente, tem dias que sou esponja. Um "bom dia" mais sério me despedaça. Uma discordância de ideias, uma desconfiança de capacidade. O suficiente para me desmontar inteira. Às vezes, sou esponja. Absorvo até o que não devia ser sentido como negativo. Inundada de tanta negatividade, me desabo em lágrimas. Sabe como é, esponja que precisa se esvaziar.

02/01/2018

Indigente


Antônio Silva, 43. Tinha quatro filhos, Claudia, de cinco, Marcos, de onze, Lívio, de quatorze, Catarina com dezenove. A mulher, Luzinete Cardoso, tinha 36. Viviam todos numa casa simples com cinco cômodos num bairro pobre da zona leste. Antônio, operário numa indústria de laticínios. Luzinete, diarista. Catarina, atendente de lanchonete. Claudia achava o máximo o pai saber fabricar queijo — era doida por eles. Os meninos sonhavam com um videogame e a mais velha, apesar de amar a família, queria casar com um cara da alta sociedade. Ser rica, ir morar no Morumbi. Luzinete tinha as mãos calejadas tal qual à de um pedreiro, também pudera, seu trabalho era árduo. Em véspera de feriado importante, Antônio ganhava algum brinde da empresa. Quando a Páscoa chegava, um ovo era dado pra cada membro da família — e Claudia dizia que queria ser operária igual ao pai.

Em plena sexta-feira santa, Antônio quis fazer sua família mais feliz. Além dos ovos, tirou quase todas as suas economias do banco e levou uma batedeira pra casa. Comprada nas Casas Bahia, em pleno feriado, quando os vendedores não dão a mínima se você quer levar alguma coisa ou não. Saiu contente. Mochila nas costas e sacolas nas mãos.