18/02/2019

Neste dia


Foto por Ayla Fazioli  | © Todos os direitos reservados

A torcida ovacionava e comemorava com fervor a bola que sacudia a rede do time rival. De camisa oficial e bandeira amarrada nas costas, ela permanecia em silêncio, alheia ao que acontecia em seu redor. Sentada no assento que geralmente serve apenas para marcar lugar, sob o céu sem nuvens de Itaquera, a felicidade que lhe invadia a alma todas as vezes em que via o Corinthians entrar em campo fora tomado por um súbito vazio no peito, um desnorteio que doía e apertava aos pouquinhos – e cada vez mais forte – seu coração. Ela ainda lembrava da primeira vez que o levara ali, explicando passes, apresentando jogadores, fotografando sorrisos e animada por estar ao lado dele na Casa do Povo.

A foto da carteirinha de Fiel Torcedor dele havia sido tirada por ela, num cantinho que ela agora evitava olhar para não reaver as memórias. A camisa, as canecas e todos os objetos que lembravam o brasão do time passaram a decorar a casa dele também, que fez questão de aprender hino, os gritos de guerra, as piadas com os times rivais e se emocionava como torcedor de longa data a cada jogada bem executada. Os ingressos comprados por ele tinham sido a última razão do sorriso de ambos, duas semanas atrás. O assento vazio ao lado do seu, naquela final de Campeonato Paulista era onde ele devia estar, pulando feito criança contente, batendo no lado esquerdo do peito o amor ao brasão corintiano.

Ela ainda quieta, olhou o telão do seu lado esquerdo e sorriu triste ao ver o placar que já despontava uma vantagem de três gols em cima do time visitante. Ele ficaria feliz em acompanhar de perto aquele jogo. Naquele momento ele já teria a pegado no colo uma cinco vezes e a beijado com vontade, teria abraçado todos os torcedores ao seu redor e aplaudido tanto que as palmas das mãos estariam vermelhas. Ele ficaria feliz… Se pudesse estar ali. Ouvindo ao longe os gritos da torcida que ecoavam pela zona leste de São Paulo, seu celular vibrou com uma notificação do Facebook. Nas lembranças pra recordar, uma foto dos dois, naquele mesmo lugar, ele de sorriso largo e olhos brilhando e ela envolvida ao redor dos braços dele. Na legenda, um simples “Vai Corinthians!”. Na data daquela foto, o time não foi, não ganhou. Um ano depois a notificação veio para salvá-la da dor que apertava.

A ligação que destruiu seu mundo ainda se repetia na sua mente. Lembrava com nitidez do cenário do acidente, aquela camisa de edição especial que ainda iria pagar a primeira parcela, envolta num corpo já inerte sendo fechado por um zíper que em nada se assemelhava com o sorriso do seu cotidiano. Eram os últimos dois minutos de jogo e, de repente, a dor cessou um pouco e sentindo a presença dele ali perto, naquele assento vazio, ela secou as últimas lágrimas que teimavam em escorrer, puxou o máximo de ar que pôde e gritou até sentir a gargante arder “Vaaai Corinthiaaans!”. Fim de jogo. Timão campeão do Paulista. Como ele faria, ela abraçou os torcedores ao redor e aplaudiu até sentir as próprias palmas ficarem vermelhas. Ele ficaria feliz se pudesse estar ali, então ela se forçaria a ficar em dobro, pelos dois.

2 comentários:

  1. Sel <3

    Caramba, que conto forte! Deu para vivenciar as emoções da protagonista - sentir com ela, em especial, a dor e a saudade. Interessante o contraste desses sentimentos com a euforia do cenário. Final ótimo!

    Abraço enorme para ti, fiquei feliz em ver conto seu por aqui 💗


    As moscas na janela

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  2. Arrepio. Choro.
    Esse texto... fiquei sem palavras. Que narrativa, menina. Que narrativa....

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Um beijão, Selma Barbosa.