
Eu percebi que a situação estava definhando quando o relógio parecia estar com os ponteiros imóveis. Calmos e silenciosos, a ânsia de vê-los rodar novamente fazia com que eu imaginasse seu ruído em minha cabeça. Tic-tac. Alto, claro e insuportável. Tic-tac. Fazia alguns dias desde que a reclusão em um ambiente tão familiar parecia a decisão certa a se tomar. Os objetos pessoais, a televisão companheira e um gato de pelúcia encharcado de pó desde o último Natal eram parte de um cenário que ainda me agradava. Só uma voz irritante e intermitente que ainda sussurrava meio inaudível que o que eu fazia a mim mesma era errado. As duas últimas visitas ao psicólogo, evitei. Achei desnecessário ir de novo relatar problemas e neuras que ele não sabia como era passá-los, coisas que ele só havia aprendido na teoria e que para mim, não fazia sentido que ele entendesse algo. A primeira semana passou calma, as outras duas foram divertidas, na quarta semana eu não tinha mais ideia do que fazer. Na quinta semana, o relógio parou. Foi como se o próprio tempo tivesse parado, se a vida lá fora houvesse silenciado e minha alma, num corpo já decrépito, ousasse manter-se animando alguém que já desistira da vida. Por um breve momento, eu lembrei da época de escola, do primeiro emprego e o namorado nerd do primeiro semestre de faculdade. Deitada no sofá de tecido preto com manchas de uso, eu olhava para o relógio enquanto sentia o pulsar do peito, ouvia o tic-tac falso em minha mente e um impulso louco de correr desesperada mesmo sem um local específico como destino.



