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10/04/2017

Tic, tac, tic...



Eu percebi que a situação estava definhando quando o relógio parecia estar com os ponteiros imóveis. Calmos e silenciosos, a ânsia de vê-los rodar novamente fazia com que eu imaginasse seu ruído em minha cabeça. Tic-tac. Alto, claro e insuportável. Tic-tac. Fazia alguns dias desde que a reclusão em um ambiente tão familiar parecia a decisão certa a se tomar. Os objetos pessoais, a televisão companheira e um gato de pelúcia encharcado de pó desde o último Natal eram parte de um cenário que ainda me agradava. Só uma voz irritante e intermitente que ainda sussurrava meio inaudível que o que eu fazia a mim mesma era errado. As duas últimas visitas ao psicólogo, evitei. Achei desnecessário ir de novo relatar problemas e neuras que ele não sabia como era passá-los, coisas que ele só havia aprendido na teoria e que para mim, não fazia sentido que ele entendesse algo. A primeira semana passou calma, as outras duas foram divertidas, na quarta semana eu não tinha mais ideia do que fazer. Na quinta semana, o relógio parou. Foi como se o próprio tempo tivesse parado, se a vida lá fora houvesse silenciado e minha alma, num corpo já decrépito, ousasse manter-se animando alguém que já desistira da vida. Por um breve momento, eu lembrei da época de escola, do primeiro emprego e o namorado nerd do primeiro semestre de faculdade. Deitada no sofá de tecido preto com manchas de uso, eu olhava para o relógio enquanto sentia o pulsar do peito, ouvia o tic-tac falso em minha mente e um impulso louco de correr desesperada mesmo sem um local específico como destino.

26/03/2017

Pé de vento


Quando Laura passou a pé rente ao meio-fio da praça central, ela sabia que jamais voltaria a ver aquelas ruas de ladrilhos com os mesmos olhos. A igreja de tijolo escuro com os sinos ostentados nas duas torres principais e os vitrais que retratavam cenas bíblicas tinham um lindo efeito multicor sob os raios solares do entardecer. A pequena área de praça dedicada aos brinquedos, com chão de terra batida que quase sempre ficava enlameado em dias de chuva fora responsável por grande parte das suas amizades. Via a si própria, dez anos antes, correndo estabanada em meio aos brinquedos enferrujados. Da cor original só sobrara o velho escorregador vermelho, que também havia guardado os risos de sua mãe, seu pai e seus irmãos. Um só escorregador. Tanta história envolta.

Diminuiu ainda mais a velocidade dos passos para apreciar por mais alguns valiosos segundos o prazer de aspirar aquele ar terroso, úmido e sertanejo. Vislumbrou as serras verdes ao redor, o céu límpido azul turquesa e um pintassilgo teimoso que se arriscara a bater asas naquele sol escaldante. O carro preto já estava parado ao lado da estátua de São José, padroeiro da pequena cidade e responsável pelas badaladas ritmadas das 18 horas de cada dia. A venda do seu Maneco, a padaria da dona Neide, a lan house do Gabriel e o posto de saúde com a enfermeira Carla. Cada casa, cada cor. Sabia exatamente quem se ocultava por trás de cada parede da cidade. Sentiria falta disso.

21/03/2017

Filmes que me lembram o outono


Esse ano eu não reclamei tanto do calor como em 2016 - o que obrigatoriamente não significa que não foi tão quente. Todo ano, quando chega em setembro, eu já fico louca esperando por março de novo. Primavera e verão não me agradam em quase nada - a não ser a sensação boa que é sair de casa com um solzinho quente pela manhã. O problema é depois da nove horas ele já está insuportável e eu volto a reclamar. Então, fevereiro ter passado tão rápido foi um susto seguido de um alívio porque chegou o outono. Ainda bem.

Eu vi esse tema de blogagem coletiva no grupo Interative-se e achei que seria bom listar alguns filmes que me lembram o outono. Fato é que alguns dele nem se passam nessa época, mas eu sempre acho que qualquer filme com fotografia mais quente, com cenas em floresta e uma música indie com pegada de uma guitarra ao fundo sempre fica com esse ar. Todos os filmes aqui listado eu vi, então diferente do post 5 filmes que você deve ver em 2017, esses eu recomendo e não quero só relembrá-los pra mim mesma. Ah! Acho que exceto Amélie Poulain, esse post podia também ser intitulado como "filmes que (quase) ninguém viu".

10/03/2017

Top 5 livros que li da biblioteca


Comecei a ler mais só por volta dos onze anos. Talvez um pouco tardio se comparado a algumas pessoas que dizem terem lido seu primeiro livro aos quatro ou cinco anos — em alguns casos até três. Lembro que meu primeiro livro veio da biblioteca da minha escola. A bibliotecária era uma das mulheres mais legais que conheci na vida e além de saber milimetricamente onde ficava cada livro, ela ainda fazia alguns artesanatos e ensinava a quem queria aprender. Graças a ela, matei algumas aulas — com a desculpa que tinha a aula vaga —, mas descobri um amor que jamais findou e serviu de base para a faculdade.

Desde então meu acervo próprio de livros cresceu muito. Ainda mais de uns três anos pra cá. Da última vez que contei, tinha 78 livros, mas em janeiro desse ano contabilizei somente os não lidos e deu um total de 49, então provavelmente já tenho mais de 100 no total. Mas mesmo com tantos livros em casa, ainda continuo pegando muito livro emprestado da biblioteca, lendo muitos e-books também e comprando vários físicos, o que é um erro, porque a lista de não lidos só continua subindo. Mas muitos dos livros que eu li pela biblioteca ainda tenho vontade de tê-los físicos — o que é bem desnecessário, mas enfim...

08/03/2017

Existimos. Resistimos.



Um dia, ainda durante a infância, reparei na quantidade de coisas que os meninos podiam fazer e as meninas não, e só com o motivo de o sermos. Outro dia, questionei porque a freira precisava andar coberta e o padre poder usar roupa normal. Reclamei a mesma coisa das muçulmanas. E isso tudo, claro, sem entender a questão religiosa envolvida. Outra vez eu achei muito injusto quando meu pai me disse que eu precisava ajudar na cozinha quando fosse pra casa da tia só porque era "coisa de mulher", enquanto ele se reunia com os irmãos e cunhados para beber cerveja — o que não significa que eu queria fazer o mesmo, mas e se o quisesse? E, porque quando crianças, devemos nos sentar como "mocinha"? Afinal de contas, quem define o que é ser mocinha? Finalmente, num dia que prefiro esquecer, aprendi que assim que nosso corpo ganha reles curvas passamos a ser vistas de um modo intimidador.

26/02/2017

Itinerário



A mochila ia  ao seu lado, no assento vazio do ônibus de viagem. Uma passada de olho pelo corredor e viu que os assentos vazios não eram poucos, mas também pudera, a cidade não era um destino interessante e ela mesma não sabia como aquela única companhia ainda mantinha a linha funcionando com tão pouco lucro. Assim que sentiu o corpo sacolejar levemente quando o ônibus arrancou ela se sentiu finalmente em paz. Catou uma maçã de um das dezenas de bolsos da mochila e deu uma mordida silenciosa enquanto apreciava a paisagem que se modificava do lado de fora da janela.

Logo vieram os primeiros suspiros enquanto os outros passageiros ressonavam e ela mesma se deu ao luxo de dar um cochilo. Quando acordou, já estava escuro e o céu parecia que não ia ver a cor da Lua aquela noite. Ao seu lado, o assento estava ocupado e a sua própria mochila agarrada aos braços de um desconhecido. Ela percebeu que o cochilo se tornou um sono pesado quando olhou as horas no relógio e já passavam das nove da noite. O ônibus já havia passado pelo único ponto em que paravam durante toda a viagem e ela não tinha mais a liberdade de um assento livre ao seu lado. Pensou em acordar o desconhecido, ou puxar a mochila, ou passar silenciosamente por ele e ir ao banheiro, mas todas as opções se tornavam muito tolas na mente quando ela parou pra pensar em cada uma separadamente. No fim, decidiu voltar a dormir. Saberia que dali em diante só teria a cidade-destino pela frente e não teria como o desconhecido fugir com sua mochila.